terça-feira, 19 de maio de 2009

Parceiro de Charles Darwin

Pesquisador alemão Fritz Müller, naturalizado brasileiro, em longa correspondência com Darwin, forneceu evidências empíricas da consistência da seleção natural

Neste ano em que se comemoram o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e os 150 anos do livro A origem das espécies, poucos sabem como idéias inovadoras e transformadoras do pensamento humano nessa área chegaram ao Brasil. Na realidade, elas foram introduzidas por um pesquisador alemão, naturalizado brasileiro, conhecido por Fritz Müller, personagem excêntrico e progressista que viveu boa parte de sua vida em Santa Catarina, entre Blumenau e Nossa Senhora do Desterro, antigo nome de Florianópolis. Müller deixou uma obra naturalística enorme, que contribuiu para fundamentar e enriquecer a teoria da evolução das espécies por seleção natural de Darwin e projetou o Brasil no cenário da culta ciência européia. Infelizmente, o legado de Müller é pouco conhecido entre nós, mesmo entre a comunidade de biólogos e professores que não divulgam sua obra.
Johann Friedrich Theodor Müller, seu nome completo, nasceu na Alemanha, numa pequena aldeia (Windischholzhausen) da Turíngia, próximo à cidade de Erfurt. Filho mais velho de um pastor evangélico, desde cedo revelou seu interesse pela Natureza, influenciado por Hermann Blumenau, amigo de seu avô, e de quem receberia profunda influência.

Atraído pelas ciências naturais e matemática Müller ingressou na Universidade de Berlim, onde, em 1844, obteve o grau de doutor em filosofia (história natural) aos 22 anos, defendendo uma tese sobre as sanguessugas da região de Berlim. Nessa ocasião já pensava em imigrar, empolgado pelas aventuras e descrições do Brasil feitas por Hermann Blumenau – fundador da cidade que leva seu nome, em Santa Catarina. Em 1845 torna-se professor ginasial em Erfut, mas devido a suas crenças liberais e temperamento rebelde abandona o posto. No mesmo ano, decide cursar medicina na Universidade de Greifswald (1845-1848) como meio de facilitar sua migração.


Mudança para o Brasil
Em 1852, aos 30 anos, Müller emigra com sua família (esposa e filha de nove meses) e um irmão da Alemanha para a recém-fundada Colônia de Blumenau, onde vive por 45 anos, até sua morte em 1897. Nos quatro primeiros anos em que viveu na mata virgem de Blumenau ajudou a construir a colônia, trabalhando na enxada e no machado como simples colono, apesar de sua privilegiada formação acadêmica. Durante esse período pesquisou fauna e flora, relacionou-se com os índios xoklengs e excepcionalmente atuou como médico, pois sua vocação era de naturalista. Sentia-se muito feliz com sua nova opção de vida no que chamava de sua segunda pátria, e nunca mais retornou à Alemanha.

Em 1855 Müller instalou-se com a família na casa em estilo enxaimel que construiu com suas próprias mãos e que hoje abriga o museu de ecologia que leva seu nome.

Fritz Müller estudou e descreveu vários grupos zoológicos, principalmente invertebrados marinhos. Tinha um talento incomum para o desenho e suas descrições eram sempre permeadas de ilustrações de incrível detalhamento. Em Desterro estabelece correspondência com várias eminências científicas da época, destacando-se sua extensa e contínua correspondência com Charles Darwin que se estende por 17 anos, até a morte do naturalista inglês em 1882. Foi em Desterro que F. Müller atingiu reconhecimento na comunidade científica internacional sendo conhecido por Fritz Müller – Desterro, codinome proposto por Ernst Haeckel (pai do termo Ecologia), para distingui-lo de outros notáveis homônimos alemães.

Em 1861, Fritz Müller recebeu um exemplar do livro A origem das espécies de Charles Darwin. Ao ler a obra sente-se identificado com as idéias de Darwin. Por ser ateu convicto, sua mente não apresentava nenhuma restrição ou resistência às concepções de Darwin, recebendo-as com natural abertura e aceitação. Inicialmente, pensa em publicar algumas observações gerais em favor da teoria, mas, em seguida, considerou que a melhor prova seria testá-la no campo, com observações experimentais com seres vivos, em vez de restringir-se a discussões teóricas.

Para testar a teoria darwiniana Müller escolheu os crustáceos, por ser um grupo muito diversificado e abundante no litoral de Santa Catarina e também por sua taxonomia já ser bem estabelecida na época. F. Müller postulou que se a teoria de Darwin estivesse correta seria possível demonstrar que os diversos táxons (grupos) de crustáceos teriam se separado uns dos outros, a partir de um ancestral comum, e foram adquirindo características novas em fases sucessivas de seu desenvolvimento (ontogênese), que seriam fixadas e/ou eliminadas pela seleção natural.

Suporte Observacional
Em seu estudo pioneiro com crustáceos Müller realizou uma série de observações que culminaram com o descobrimento de muitos fatos novos, principalmente no que se refere ao seu desenvolvimento. O fruto desse longo e minucioso estudo resultou num livro de excepcional riqueza de observações originais Für Darwin (Pró-Darwin). O livro foi publicado em Leipzig, Alemanha, em 1864 (por W. Engelmann) e ajudou a propagar e defender a teoria darwiniana, que tinha suscitado forte reação contrária naquele país. A tradução de Für Darwin para o português foi feita em 1907-08 na revista Kosmos do Rio de Janeiro (versão incompleta) e mais recentemente (1990) uma versão completa foi empreendida por Hitoshi Nomura (Fundação Catarinense de Cultura e Departamento Nacional da Produção Mineral, edição esgotada).

Esse denso e original ensaio inclui um número extraordinário de observações sobre crustáceos, abrangendo as diferentes adaptações das espécies de ambiente marinho que migraram para água doce e ambiente terrestre, a assimetria bilateral dos membros, o dimorfismo sexual, o polimorfismo intra-específico e a morfologia e desenvolvimento das diferentes formas larvais. Tudo com ilustrações à mão livre.

Ao longo de 12 capítulos, o livro trouxe subsídios preciosos e decisivos a favor da teoria darwiniana. Como conclusão às suas observações Müller escreve: “Durante o período crucial da dúvida, que não foi curto, quando o fiel da balança oscilava diante de mim em perfeita incerteza entre os prós e os contras [à teoria darwiniana], e quando todo e qualquer fato que levasse a uma pronta decisão teria sido bem-vindo, nunca tive o menor problema com qualquer contradição surgida entre as conseqüências trazidas para a classe dos crustáceos pela teoria de Darwin. Pois nunca as encontrei, nem na época, nem depois. Aquelas que havia encontrado dissiparam-se após uma consideração mais profunda, ou converteram-se em sustentáculos da doutrina darwinista”.

Cabe ressaltar que o uso de caracteres adquiridos compartilhados (conhecidos hoje por sinapomorfias) para mostrar relações filogenéticas (evolutivas) entre espécies vivas de crustáceos foi uma grande inovação introduzida por Müller. Os diagramas de ramos que ele utilizou, hoje conhecidos como cladogramas por agruparem os organismos e seus ancestrais comuns em clados, e tão utilizados em árvores filogenéticas, já haviam sido propostos por Müller um século antes da teoria cladística, proposta por Willi Hennig. Nelson Papavero relata que Müller foi, certamente, o primeiro a criar uma filogenia séria, com base em observações concretas e exaustivas de material vivo, diferentemente de Darwin, e depois, Haeckel, que propuseram árvores filogenéticas teóricas.

Müller desenvolve ainda em Für Darwin, a recapitulação ontogenética da filogenia, que foi fortemente corroborada e divulgada por Haeckel. Na época de Müller, já se sabia que as fases larvais e juvenis dos crustáceos abrangem uma grande variedade de formas. Os crustáceos mais basais nas filogenias, como cracas, copépodes e ostracodes emergem do ovo sob forma de náuplio, a forma larval mais simples. Os caranguejos marinhos e camarões de água doce nascem no estágio de zoea, formas larvais que já apresentam inúmeros apêndices. Já os lagostins de água doce e alguns caranguejos terrícolas (crustáceos superiores) suprimem as fases larvais e a metamorfose e emergem do ovo já sob forma juvenil, pequenos adultos em miniatura.

Pioneirismo Plagiado
No litoral de Santa Catarina, Fritz Müller descobriu um camarão marinho do gênero Penaeus que nasce, curiosamente, sob forma de náuplio, antes de passar pelo estágio de zoea. Face a essa observação Müller sugeriu, de acordo com a teoria darwiniana, que os caranguejos marinhos e os camarões que emergem sob forma de zoea, deveriam passar pelo estágio mais simples de náuplio durante seu desenvolvimento embrionário, o que de fato se confi rmou. Hoje, pode-se dizer que os crustáceos derivados, que saíram do ambiente marinho para áreas continentais, “embrionizaram” as formas larvais mais simples de seus ancestrais, carregando a história de seus antepassados na sua fase embrionária (recapitulação ontogenética da filogenia).

Segundo David West, a Lei da biogenética, de autoria de Haeckel em 1866, que defende que a ontogenia (desenvolvimento individual, de embrião a adulto) recapitula a fi logenia (trajetória evolutiva de um grupo), foi na realidade proposta originalmente por F. Müller e “copiada” por Haeckel, que só reconheceu sua dívida para com Müller em 1872.

Darwin teve acesso ao livro de Fritz Müller em 1865 e percebeu imediatamente o inestimável suporte que a obra representava às suas idéias. Nesse mesmo ano, Darwin escreve a F. Müller ... “O senhor fez um admirável serviço pela causa em que ambos acreditamos. Muitos de seus argumentos me parecem excelentes, e muitos de seus fatos, maravilhosos.... vejo a publicação de seu ensaio como uma das maiores honras que jamais me foram conferidas”... O próprio Darwin providenciou a tradução do livro de Müller para o inglês numa edição publicada em 1869, sob o título de Facts and arguments for Darwin. Inicia-se então uma intensa correspondência entre os dois que dura até a morte de Darwin. Mas eles nunca se conheceram pessoalmente.

Darwin referia-se ao amigo Fritz Müller como “príncipe dos observadores” e o considerava como um mestre, apesar de 13 anos mais jovem. Darwin recorreu a Müller inúmeras vezes para elucidar pontos importantes e controvertidos de sua teoria. E Müller supriu Darwin de incontáveis evidências nas áreas da zoologia e botânica que fundamentaram e enriqueceram sua teoria. Fritz Müller é citado 16 vezes nas edições posteriores de A origem das espécies de Darwin. Em carta ao amigo, Darwin escreve: “Só Deus sabe se viverei o suficiente para aproveitar a metade dos importantes fatos que me tens comunicado... Não acredito que haja alguém no mundo que admire seu zelo na ciência e seu grande poder de observação mais que eu” (carta de 23/02/1881).

A correspondência entre Fritz Müller e Darwin foi publicada em português por um dos autores (Cezar Zillig) sob o título de Dear Mr. Darwin, em 1997, por ocasião do centenário da morte de Fritz Müller.

Durante toda sua vida Müller dedicou-se entusiasticamente à sustentação da teoria de Darwin, através de inúmeras observações minuciosas, muitas delas encomendadas pelo próprio Darwin. Em seu obituário publicado na revista Nature (1897), questiona-se se algum outro naturalista, além do próprio Darwin, deu ao mundo uma massa tão ampla e original de observações na qual a seleção natural fosse tão consistentemente fundamentada.

Desconhecido no Brasil
Dentre as inúmeras contribuições de Müller destaca-se ainda o reconhecido fenômeno do mimetismo mülleriano, citado em todos os livros de biologia evolutiva. Quantos biólogos brasileiros sabem que esse fenômeno foi proposto pelo Fritz Müller de Blumenau/ Desterro? O mimetismo batesiano, que propõe que borboletas monarcas palatáveis assumem padrões de desenhos e cores de asas muito similares às borboletas não-palatáveis, como forma de proteção contra predadores, parece ser mais bem conhecido. Fritz Müller ficou intrigado em descobrir porque várias borboletas não-palatáveis, em Santa Catarina, apresentavam também padrões de desenhos e cores de asas muito semelhantes entre si.

Que vantagem esse mimetismo poderia trazer, já que todas as borboletas eram não-palatáveis e, portanto, não apreciadas por predadores? Müller demonstrou que existe uma vantagem real e incontestável nesse tipo de mimetismo que é inversamente proporcional ao quadrado do número de seus indivíduos. Isso significa que a espécie mais rara teria um ganho maior e, portanto, estaria sob seleção natural mais forte.

Apesar de seu possível desconforto e da necessidade de sobreviver numa região tão inóspita, Müller deixou um enorme legado florístico e faunístico, especialmente da região sul do Brasil, contribuindo para o conhecimento da sistemática, morfologia e fisiologia dos seres vivos. Identificou e descreveu, pela primeira vez um número enorme de espécies de invertebrados marinhos, de água doce e terrestres, além de plantas da região subtropical, sempre enriquecendo suas descrições com ilustrações de incrível detalhamento. Entre o legado faunístico destacam-se crustáceos, abelhas brasileiras (principalmente as sem ferrão), insetos tricópteros, mosquitos, cupins, formigas, borboletas e hemicordados, entre outros. Em seu legado florístico dedicou-se em especial às orquídeas e bromélias (estudando ainda as interações inseto-planta), plantas trepadeiras com seus ramos modificados em gavinhas, movimentos de plantas e folhas, entre outros.

CONCEITOS-CHAVE ■ Fritz Müller, naturalista alemão que em 1852, aos 30 anos, emigrou para o Brasil, foi o único colaborador de Charles Darwin aqui.

■ Ao longo de anos de correspondência, Müller, que nunca teve um encontro pessoal com Darwin, forneceu evidências empíricas, resultado de suas observações sobre a consistência da evolução.

■ Para testar a teoria darwiniana Müller escolheu os crustáceos, por ser um grupo muito diversificado e abundante no litoral de Santa Catarina onde vivia e também por sua taxonomia já ser bem estabelecida na época.

■ Desse longo e minucioso estudo resultou o livro Für Darwin (Pró-Darwin). Publicado em Leipzig, Alemanha, em 1864, o qual ajudou a propagar e defender a teoria darwinista que havia provocado forte reação contrária naquele país.

■ Criador do mimetismo mülleriano, Fritz Müller é pouco conhecido no Brasil, mesmo entre biólogos.
– Os editores


PARA CONHECER MAIS M. W . Castro, 1992. O sábio e a floresta. Ed. Rocco, Rio de Janeiro.

F. Müller, 1869. Facts and arguments for Darwin. John Murray, Londres.

N. Papavero, 2003. Fritz Müller e a Comprovação da Teoria de Darwin em A recepção do darwinismo no Brasil. H. M.B. Domingues; M. Romero Sá; Glick T. Ed. Fiocruz, Rio de Janeiro.

E. Roquette-Pinto; P. Sawaya; Nascimento, G.K P. Friesen; Zillig, C. 2000. Fritz Müller: reflexões biográficas.

P. Sawaya, 1966. Homenagem a Fritz Müller. Ciênc. Cult. Vol. 18.

D. A. West, 2003. Fritz Müller: A naturalist in Brazil. Ed. Pocahontas Press, Virginia.

C. Zillig, 1997. Dear Mr. Darwin: a intimidade da correspondência entre Fritz Müller e Charles Darwin. Ed. AS Gráfica e Editora.

domingo, 17 de maio de 2009

O outro Darwin

Livro aponta compaixão abolicionista como fonte da teoria da evolução por seleção natural
MARCELO LEITE

Os 200 anos de nascimento de Charles Darwin forneceram ocasião para um frenesi editorial. Celebrou-se a efeméride sobre o único grande pensador do século 19 a atravessar o 20 incólume, ou bem adaptado, com dezenas de livros. Darwin foi exumado, de novo, para demonstrar o excelente estado de conservação do mito do cientista guiado apenas pelas luzes da razão e dos fatos.Eis o homem cujo pensamento pôs a religião de joelhos. Aquele que expulsou os vendilhões de valores do templo do conhecimento objetivo. O profeta barbudo da teoria que tudo explicou e tudo explicará, muito além de Marx e Freud.Felizmente há historiadores na praça, como Adrian Desmond e James Moore. Autora de uma já celebrada biografia de Darwin ("A Vida de um Naturalista Atormentado", 1994), a dupla produziu aquele que poderá permanecer como o livro mais importante da safra de 2009, "A Causa Secreta de Darwin". Uma tijolada de 485 páginas na vitrina de cientificismo em que se converteu boa parte da divulgação científica.Leitura obrigatória, em especial para brasileiros. Desmond e Moore (D&M) põem no meio do salão vitoriano o preto que muitos nacionais ainda relutam em admitir no sofá da casa grande. A obra fundamenta a tese de que a senzala brasileira, afinal, pode ter sido tão importante para a teoria da evolução quanto as ilhas Galápagos. Na origem de tudo, a escravidão.Os primeiros capítulos de D&M trazem uma detalhada reconstituição da militância abolicionista das famílias Darwin e Wedgwood, nas quais Charles cresceu e se casou (com a prima-irmã Emma). O tio Josiah Wedgwood, responsável por convencer Robert Darwin a permitir o embarque do filho no navio Beagle, candidatou-se ao Parlamento só para defender a causa.Da fábrica de porcelanas Wedgwood saíra, já em 1787, por obra do avô de Darwin, um medalhão cuja venda angariava fundos para a abolição do tráfico de escravos. Trazia a inscrição "Não sou eu um homem e um irmão?" sobre a figura de um negro de joelhos, com as mãos acorrentadas. É a ilustração ideal do fulcro da tese de D&M: todo o pensamento de Darwin gira em torno da unidade da espécie humana, irmanada por um ancestral comum.Esta convicção moral, para os autores, foi a matriz de "A Origem das Espécies". Dela brotou a ideia de diversificação a partir do tronco único da Árvore da Vida. Era também a questão que galvanizava o debate entre abolicionistas, defensores da espécie humana única, e escravistas, adeptos da noção de espécies separadas.Esse debate foi travado nas trincheiras da ciência. Uma lista impressionante de nomes nele se engajou. Darwin não raro estava no centro da controvérsia, conspirando ou altercando com boa parte deles: Charles Lyell, Alfred R. Wallace, Louis Agassiz, Thomas Huxley, Ernst Haeckel, Arthur de Gobineau, e por aí vai.D&M compõem um panorama fascinante da cultura do século 19 anglo-saxão no momento em que se produzia o cisma entre antropologia física e cultural. Darwin participou com vigor, movido por uma indignação trazida do berço, mas reforçada com a experiência direta da crueldade da escravidão no Brasil. Na velhice, ainda se lembrava com desgosto dos gritos de um negro seviciado em Pernambuco e da separação de pais e filhos para a venda no mercado do Rio de Janeiro.ValoresA tese central do livro já seria suficiente para adicionar um grão de sal ao credo ainda tão em voga de que não há lugar para valores na ciência natural. Calhou de Darwin estar certo, mas não por ter se orientado exclusivamente pela bússola das evidências naturais. Pintá-lo como o campeão da razão objetiva em combate contra a superstição religiosa resulta numa falsificação grosseira. O materialismo naturalista era seu método, não sua crença.D&M vão além. Darwin seria movido não só por uma convicção abstrata, mas também por um sentimento mais visceral: compaixão. Esta subtese, pouco desenvolvida no livro, sugere que Darwin, mais até do que animalizar o homem, estendeu as raízes do humano em direção aos animais.De um lado, Darwin buscou nas emoções baixas dos primatas, e mais atrás, as origens das elevadas faculdades humanas. De outro, explicou a existência de raças na espécie humana -talvez a sua maior dificuldade- como produto de instintos inferiores, pelo mecanismo da seleção sexual. Nada de essencial nos separaria das bestas."Dois assuntos que comoviam meu pai talvez mais profundamente do que quaisquer outros eram a crueldade com animais e a escravidão -sua ojeriza por ambos era intensa, e sua indignação era avassaladora em caso de qualquer leviandade ou falta de sentimento nessas matérias", testemunhou o filho William em 1883, como destacam D&M no capítulo final de "A Causa Secreta".O biocientista pós-moderno, avesso a todo "sentimentalismo" e interferência de valores "ideológicos" na pesquisa, terá alguma dificuldade de reconciliar esse outro Darwin com seu mais celebrado herói.

LIVRO - "Darwin's Sacred Cause. How a Hatred of Slavery Shaped Darwin's Views on Human Evolution" ("A Causa Secreta de Darwin. Como o Ódio à Escravidão Conformou a Visão de Darwin sobre a Evolução Humana") Adrian Desmond e James Moore. Houghton, Mifflin Harcourt, 485 págs., US$ 30,00.

sábado, 21 de março de 2009

A Darwin que é de Darwin

Charles Darwin é um de paradoxo moderno. Não sob a ótica da ciência, área em que o seu trabalho é plenamente aceito e celebrado como ponto de partida para um se grau de conhecimento sem precedentes sobre os seres vivos. "Sem a teoria da evolução a moderna biologia, incluindo a medicina e a biotecnologia simplesmente não faria sentido. O enigma reside na relutância quase um de mal-estar que suas idéias causam entre um vasto contingente de pessoas, algumas delas fervorosamente religio sas, outras nem tanto. Veja o que ocor re nos Estados Unidos. O país dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premia dos com Nobel e registra mais pa tentes do que todos os seus concorren tes diretos somados. Ainda assim só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de mi lhões de anos de evolução. O outro considera razoável que nós, e todas as coisas que nos cercam, estejamos aqui por dádiva da criação divina. Mesmo na Inglaterra, país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de suas idéias ou as veja como pura enganação. Na semana em que se comemora o bicen tenário de nascimento de Darwin e, por coincidência, no ano do sesqui centenário da publicação de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como explicar a persistente má vonta de' para com suas teorias em países campeões na produção científica?

Para investigar a razão pela qual as ideias de Darwin ainda são vistas co mo perigosas, é preciso recuar no pas­sado. Quando o naturalista inglês pela primeira vez propôs suas reses sobre a evolução pela seleção natural, a maio ria dos cientistas acreditava que a Ter ra não tivesse mais de 6.000 anos de existência, que as maravilhas da natu reza fossem uma manifestação da sa­bedoria divina. A hipótese mais aceita sobre os fósseis de dinossauros era que se tratava de cria turas que perderam o embarque na Arca de Noé e foram extintas pelo dilúvio bíblico. A publicação de A Origem das Espécies teve o efeito de um tsunami na Inglaterra vitoriana. Os biólo gos se viram desmentidos em sua cer­teza de que as espécies são imutáveis. A Igreja ficou perplexa por alguém desafiar o dogma segundo o qual Deus criou o homem à sua semelhança e os ani mais da forma como os conhecemos. A so ciedade se chocou com a tese de que o homem não é um ser especial na natureza e ainda por cima, tem parentesco com os macacos. Havia na quele momento, com preensível contestação científica às novas idéias. Darwin havia reunido uma quantidade impressionante de provas empíricas - mas ainda restavam mui tas questões sem resposta.

O primeiro exemplar a sair da" gráfica foi enviado a sir lobo Herscbel, um dos mais famosos cientistas ingleses vivos em 1859. Darwin tinha tanta ad­miração por ele que o citou no primeiro parágrafo de A Ori gem das Espécies. Herscbel não gostou do que leu.. Ele não podia acreditar sem provas científicas tangíveis, que as es pécies podiam surgir de varia ções ao acaso. Pressionado, Dar win disse que, se alguém lhe apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente, sua teoria poderia ser jogada no lixo. O que se encontrou em profusão foram evidências da correção do pensamento de Darwin em seus pontos essenciais. Hoje, para entender a história da evolução. sua narrtiva e mecanismo, os modernos darwinistas não precisam conjemrar sobre o funcionamento da hereditariedade. Eles simplesmente consultam as estruturas genéticas. As evidências que susten tam o darwinismo são agora de grande magnitude - mas, estranhameme, a ansiedade permanece.

Outros pilares da ciência moderna, o como a teoria da relatividade, de Albert Einstein não suscitam tanta desconfiança e hostilidade. Raros são aqueles que se sentem incomodados diante a impossibilidade de viajar mais rápido que a luz ou saem à rua em protesto contra a afirmação de que a gravidade deforma o espaço-tempo. Evidentemente, o núcleo incandescente da irritação causada por Darwin tem conotação religiosa. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu o único bom argumento disponível pa ra a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida na fé de cada in divíduo. Mas isso não explica tudo. Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu palpite: "Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua auto estima. O primeiro foi constatar e que a Terra não é o centro do universo. e o segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal. Pelo ( raciocínio do pai da psicanálise a rejeição à teoria da evolução seria uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie humana contido nas ideias de Copémico e Darwin).

O biólogo americano Stephen Jays Gould, um dos grandes teóricos do evolucionismo no século xx, morreu em 2002, dizia que as teorias de Darwin são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho as do homem na Terra. Disse a VEJA o biólogo americano David Sloan WIlayson, da Universidade Binghamton: "As grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas conseqüências, não pelo seu va lor intrínseco. Infelizmente, a evolu ção é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres huma nos". Uma pesquisa publicada pela revista New Scienst sobre a aceitação do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defenso res da evolução estão na Islândia, Di­namarca e Suécia. De modo geral. a crença na evolução"' é inversamente proporcional à crença em Deus. Mas a pesquisa encontrou outra configuração interessanre: os habitantes dos países ricos acreditam menos em Deus que aqueles que vivem em países inseguros. Isso pode significar que a crença em Deus e a rejeição do evolucionismo são mais intensas nas sociedades a sujeitas às pressões darwinistas. como c escreveu a revista Economist.

A teoria da evolução causa mal-estar em muita gente - mas só algumas confissões evangélicas conveneram o darwinismo em um inimigo a ser combatido a todo custo. Como essas reJi- t gires são poderosas nos Estados Unidos. é lá que se trava o mais renbido COID- ( bate dessa guerra santa. Ciência e reli- I gião já andaram de mãos dadas pela t maior parte da história da bumanidade (veja reportagem na pág. 88). Mas es se nó se desatou há dois séculos e Dar win Joi um dos responsáveis por esse . divórcio amigável. com nítidas vanta gens para ambos os lados.

Desde o ano passado, o bordão en ITe os criaciooistas americanos é "li berdade acadêmica". A ideia que ten tam passar é que o darwinismo é ape nas uma teoria. não um fato, e ainda por cima está cbeio de lacunas e é ca reme de provas conclusivas. Sendo assim. não há por que Darwin mere cer maior destaque que o criacionis mo. O argumemo é de evidente má-fé. Em seu significado comum. teoria é sinônimo de hipótese, de acbismo. A teoria da evolução de Darwin usa o termo em sua conotação cienúfica. Nesse caso. a teoria é uma síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses que foram tes tadas e comprovadas por leis e fatos cienúficos. Ou seja. uma linha de ra ciocínio confirmada por evidências e experimentos. Por isso. quando é en sinado numa aula de religião. o Gêne sis está em local apropriado. Coloca do em qualquer outro contexto. sóserve para confundir os esmdantes so bre a natureza da ciência.

A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe. por exemplo, o que existia antes do Big Bang. que deu origem ao universo há 13,7 bilbões de anos. Nosso conheci memo só começa três minutos depois do evento. quando as leis da física passaram a existir. Os cien tistas também não são capa zes de recriar a vida a partir de uma poça de água e al guns elementos químicos o que se acredita ter aconte.o~ cido 4,5- bilhões de anos"" atrás. A mão de Deus teria contribuído para que esses eventos primordiais tenham ocorrido? Não cabe à ciência responder enquanto não houver pro vas científicas do que aconteceu. O fato é que a luta dos criacionistas con tra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamen tos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.

Manda o bom senso que não se misturem ciência é religião. A primeira perscruta os mistérios do mundo físi­co; a segunda, os do mundo espirimal. Elas não necessanwente se elimi nam. Há cientistas eminentes que creem em Deus e não veem nisso ne nhuma contradição com o darwinismo. O mais conhecido deles é o biólogo americano Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamen to do DNA..humano, Diz ele: "Usar as ferramentas da ciên cia para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. A Bíblia não é um livro científico. Não deve ser levado ao pé da letra". A Igreja Católica aceitou há bastante tempo que sua atri­buição é cuidar da alma de seu I bilhão de fiéis e que o Mundo físico é mais bem ex plicado pela ciência. O Vati­cano até organizará em março o simpósio "Evolução bioló gica: fatos e teorias – Uma avaliação crítica 150 anos depois de A Origem das Espécies".

Em A Origem das Espécies, num raciocínio que cabe em poucas linhas mas expressa ideias de alcance gigan tesco, Darwin produziu uma revolução que alteraria para sempre os ru mos da ciência. Ele mostrou que todas as espécies descendem de um ances­tral comnrn. uma forma de vida sim ples e prilnitiva. Darwin demonstrou também que, pelo processo que bati zou de seleção naturaI. as espécies evoluem ao longo das eras, sofrendo mutações aleatórias que são transmi tidas a seus descendentes. Essas mu­tações podem determinar a permanên cia da espécie na Terra ou sua extin ção - dependendo da capacidade de adaptação ao ambiente. Uma década depois da publicação de seu livro se minal, o impacto das ideias de Darwin se multiplicaria por mil com o lança mento de A Descendência do Homem. obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram de um mes mo ancestral, há 4 milhões de anos.

O embate entre evolucionistas e criacionistas teria causado um des gosto profundo a Darwin. que era religioso e chegou a se preparar pa ra ser pastor da Igreja Anglicana. Esse plano foi interrompido pela fantástica aventura que prorago nizou entre 1831 e 1836, em viagem a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração científica, numa das passagens mais conhecidas da história da ciência. Aos 22 anos, Darwin embarcou no Beacle para servir de acompanhante ao capitão do barco, o aristocratainglês Robert Titzroy. Durante a viagem, que se estendeu por quatro continentes, Darwin deu vazão à curiosidade sobre o mundo natural que o acompanhava desde a infância. Até a volta à Inglaterra, havia recolhido 1526 espéices de frascos com alcool e 3907 esp´´ecimes preervados. Darwin escreveu um diário de 770 páginas, no qual relata suas experiências nos lugares por onde passou. No brasil, visitou o Rio de Janeiro e a Bahia, extasiando-se com a biodiversidade da mata Atlancica - mas ficou horrorizado com a maneira como os escravos eram tratados.

Durante a viagem. Darwin fez as principais observações que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção natural. Grande parte delas te ve como cenário as llbas Galápagos, no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies eram semelbantes às que existiam no conlinente, mas apresenravam pequenas diferenças de uma ilha para OUIra.. Chamaram sua atenção. principalmente. os rentiJhões. pássaros cujo bico apresentava um formato em cada ilha. de acordo com o tipo de alimentação disponível. A única explicação para isso seria qu'e as primeiras espécies de animais che garam às ilhas vindas do conlinente. Depois. desenvolveram características diferentes.. de acordo com as condi ções do ambiente de cada ilha. Era a prova da evolução. Mais recentemen te. ao eswdarem os mesmos tentiJhões das llbas Galápagos. grupos de biólo­gos observaram a evolução ocorrer em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro. de acordo com as mudanças nas condições climáticas da ilha. Darwin. que definiu a evolu ção como um processo invariavelmen te longo. através das eras. ficaria es­pantado com as novas descobertas em seu parque de diversões cienúfico.

Ao retomar à Inglaterra. após a viagem do Beagle. Darwin foi amadu recendo a teoria da evolução e come­çou a escrever A Origem das Espécies dois anos depois, em 1838. Só publi cou o volume. no entanto, após 21 anos. Ele sabia do potencial t}xplosivo de suas ideias na ultraconservadora Inglaterra do século XIX - da qual, ele próprio, era um legítimo represen tante. Elaborar uma teoria que ia con tra os dogmas da Bíblia era, para Dar­win, motivo de enorme angústia. Não colaboravam em nada os temores de sua mulher, Emma, de que, por causa de suas ideias, Darwin fosse para o in ferno após a mone, enquanto ela iria para o céu - com isso, eles estariam condenados a viver separados na vida eterna. Darwin nunca declarou que a B,ôlia estava errada. Manteve a fé reli giosa até os último~ anos de vida, quando se declarou agnóstico - segundo seus biógrafos, sob o impacto da mone da filha Annie, aos 10 anos de idade.

Após o lançamento de A Origem das Espécies,- um best-seller que es gotou rapidamente cinco edições, os cientistas não demoraram a aceitar a proposta de que as plantas e os ani mais evoluem e se modificam ao lon go das eras. Na verdade, essa ideia chegou a ser formulada por outros cientistas, inclusive pelo avô de Darwin, o filósofo Erasmus Darwin. A noção de que a evolução das espé cies se dá pela seleção namral, no en tanto, é original de Charles Darwin, e só foi aceita integralmente depois da descobena da estrUtura do DNA, em 1953. Darwin atribuiu a transmissão de características enrre as gerações a células chamadas gêmulas, que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os órgãos sexuais. Lá chegando, seriam copiadas e passa às gerações seguintes. Os estudos feiros com ervilhas pelo monge ausrríaco Gregor Mendel na segunda metade do século XIX, mas aos quais a comunidade ciemífi ca só deu imponância no início do sé culo XX, estabeleceram a ideia básica da genética moderna, a de que as ca racterísticas de cada indivíduo são transmitidas de pais para filhos pelo que ele chamou de "farores", e hoje se conhece como genes. Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação ciemífica. A descoberra da dupla hélice do DNA, pelos cientistas James Watson e FraI;l cis Crick, em 1953, finalmeme escla receu o mecanismo por meio do qual a informação genética é rransmitida através das sucessivas gerações. Hoje, os biólogos se dedicam a responder a questões ainda em aberro no evolucio nismo, como quais são exatainenre as mudanças genéticas que provocam as adaptações produzidas pela seleção narural. É espamoso qne, enquamo continuam a desbravar, territórios na ciência, as ideias de Darwin ainda despenem tamo temor.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Evolução vs Criação













Teoria da Evolução: Darwin vs Wallace

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Darwin: avançado para sua época, mas influente até hoje

Teoria de naturalista explicou a origem das espécies.
Ideias do britânico causam controvérsia ainda nos dias de hoje.
Nicholas Wade Do 'New York Times'

Charles Darwin 

A teoria da evolução, de Darwin, se tornou a pedra fundamental da biologia moderna. Porém, durante grande parte da existência dessa teoria, nascida em 1859, até mesmo biólogos a ignoraram ou a negaram veementemente, em todo ou em parte.

O fato de os biologistas terem levado quase meio século para entender a visão de Darwin corretamente é, por si só, uma testemunha de sua mente extraordinária.

Biólogos rapidamente aceitaram a ideia da evolução, mas durante décadas rejeitaram a seleção natural, o mecanismo proposto por Darwin para o processo evolucionário. Até meados do século 20 eles ignoraram amplamente a seleção sexual, um aspecto especial da seleção natural, proposto por Darwin para explicar ornamentos masculinos, como as plumas de um pavão macho. Eles ainda discutem sobre a seleção no nível de grupos, a ideia de que a seleção natural pode operar tanto na esfera grupal quanto na individual. Darwin propôs a seleção grupal – ou algo do tipo; estudiosos diferem em relação ao quê exatamente ele se referia – castas em sociedades de formigas e moralidade nas pessoas.

Como Darwin pôde ser tão avançado em relação à sua época? Por que os biólogos foram tão lentos para entender que Darwin havia oferecido a resposta correta para tantas questões essenciais? Historiadores da ciência observaram várias características distintivas da abordagem de Darwin em relação à ciência que, além de geniais, foram responsáveis por suas ideias. Eles também apontam vários critérios não-científicos que funcionavam como bloqueios mentais, dificultando a aceitação das ideias de Darwin pelos biólogos.

 

Livre pensar

Uma das vantagens de Darwin é que ele não teve de escrever propostas para bolsas de pesquisa ou publicar 15 artigos por ano. Ele pensou profundamente sobre cada detalhe de sua teoria por mais de 20 anos antes de publicar "A Origem das Espécies", em 1859, e por 12 anos mais, antes de sua sequência, "The Descent of Man", que abordava como sua teoria era aplicada ao ser humano.

Darwin trouxe inúmeras virtudes intelectuais para a tarefa. Em vez de varrer objeções a sua teoria, ele refletia sobre ela obsessivamente, até descobrir uma solução. Ornamentos masculinos chamativos, como as plumas do pavão, eram aparentemente difíceis de serem explicados pela seleção natural, pois pareciam mais um defeito do que uma ajuda à sobrevivência. "Sempre que vejo uma pluma no pavão, fico doente", escreveu Darwin. Porém, de tanto se preocupar com a questão, ele desenvolveu a ideia da seleção sexual, de que fêmeas escolhem machos com os melhores ornamentos, e por isso os machos mais elegantes dão mais crias.

Darwin também era intelectualmente duro na queda. Ele se agarrava às consequências profundamente confusas de sua teoria, a de que a seleção natural não tem nenhum propósito ou objetivo. Alfred Wallace, que pensou sobre a seleção natural de forma independente, mais tarde perdeu a confiança no poder dessa ideia e recorreu ao espiritualismo para explicar a mente humana. "Darwin teve a coragem de enfrentar as implicações do que tinha feito, mas o pobre do Wallace não conseguiu", conta William Provine, historiador da Cornell University.

A ideia de Darwin sobre a evolução não era somente profunda, mas também muito ampla. Ele se interessava por fósseis, criação de animais, distribuição geográfica, anatomia e plantas. "Essa visão bastante abrangente o permitiu enxergar coisas que talvez os outros não tenham visto", afirma Robert J. Richards, historiador da Universidade de Chicago. "Ele tinha tanta certeza de suas ideias centrais – a transmutação das espécies e a seleção natural – que ele teve de encontrar uma forma de juntar tudo isso".

Da perspectiva atual, os principais conceitos de Darwin estão substancialmente corretos. Ele não acertou tudo. Por não conhecer as placas tectônicas, os comentários dele sobre a distribuição das espécies não são muito úteis. Sua teoria sobre hereditariedade, já que ele não conhecia a genética ou o DNA, também não vem ao caso. No entanto, seus conceitos centrais sobre seleção natural e sexual estavam corretos. Ele também apresentou uma forma de seleção em nível grupal que foi durante muito tempo descartada, mas agora tem defensores como os biólogos E.O. Wilson and David Sloan Wilson.

Darwin não estava apenas correto em relação às premissas centrais de sua teoria. Suas visões prevalecem em várias outras questões ainda em aberto. Sua ideia sobre como novas espécies se formam foi ofuscada durante muito tempo pela visão de Ernst Mayr de que uma barreira reprodutiva, como uma montanha, força uma espécie a se dividir. Porém, inúmeros biólogos agora estão retornando à ideia de Darwin de que a especiação ocorre mais frequentemente através da competição em espaços abertos, diz Richards.

Darwin acreditava na continuidade entre humanos e outras espécies, o que o levou a pensar sobre a moralidade humana como relacionada à simpatia observada entre animais sociais. Essa ideia, rechaçada por muito tempo, somente foi ressuscitada recentemente por pesquisadores como o especialista em primatas, Frans de Waal. Darwin "nunca achou a moralidade uma invenção nossa, mas um produto da evolução, uma posição, hoje, com alto crescimento em popularidade, devido à influência do que sabemos sobre o comportamento animal", afirma de Waal. "Na verdade, retornamos à visão darwiniana original".

 

Inflamável

É notável que um homem morto em 1882 ainda influencie discussões entre biólogos. Talvez seja igualmente estranho o fato de tantos biólogos terem deixado, durante décadas, de aceitar as ideias de Darwin, expressas claramente em um inglês elegante.

A rejeição se deve, em parte, porque uma grande área da ciência, incluindo os dois novos campos da genética mendeliana e da genética populacional, precisava ser desenvolvida antes que outros tentadores mecanismos de seleção pudessem ser excluídos. No entanto, houve também uma série de considerações não-científicas que afetaram o discernimento dos biólogos.

No século 19, os biólogos aceitaram a evolução, em parte porque ela implicava progresso.

"A ideia geral de evolução, particularmente se você a tomasse como progressiva e propositada, se encaixava na ideologia da época", diz Peter J.Bowler, historiador de ciência da Universidade do Queens, em Belfast. Porém, isso tornou muito mais difícil aceitar que algo tão despropositado como a seleção natural pudesse ser a força modeladora da evolução. "A Origem das Espécies" e sua ideia central foram largamente ignoradas e não voltaram à moda até a década de 1930. Nessa época, o geneticista populacional R.A. Fisher e outros mostraram que a genética mendeliana era compatível com a ideia da seleção natural, trabalhando em pequenas variações.

"Se você pensar nos 150 anos desde a publicação de 'Origem das Espécies', a obra passou metade desse tempo no deserto e metade no centro, e mesmo no centro ela não foi mais do que marginal, diz Helena Cronin, filósofa de ciência da Escola de Economia de Londres". “Essa é uma rejeição bastante abrangente a Darwin."

Darwin ainda está longe de ser totalmente aceito em ciências fora da biologia. "As pessoas dizem que a seleção natural é correta para corpos humanos, mas não quando se trata de cérebros ou comportamento", diz Cronin. "Porém, fazer uma exceção para uma espécie é negar a doutrina de Darwin em compreender todos os seres vivos. Isso inclui quase o todo dos estudos sociais – e esse é um corpo de influência considerável que ainda está rejeitando o darwinismo."

O desejo de enxergar um propósito na evolução e a dúvida de que ela realmente se aplique a pessoas eram dois critérios não-científicos capazes de levar cientistas a rejeitar a essência da teoria de Darwin. Um terceiro, em termos de seleção em grupo, pode ser a tendência das pessoas de pensar nelas mesmas como indivíduos, e não como unidades de um grupo.

"Cada vez mais, estou começando a pensar sobre o individualismo como nosso próprio preconceito cultural que explica mais ou menos por que a seleção em grupo foi tão fortemente rejeitada e ainda é tão controversa", diz David Sloan Wilson, biólogo da Universidade Binghamton.

Historiadores cientes do longo eclipse enfrentado pelas ideias de Darwin talvez tenham uma noção mais clara de sua extraordinária contribuição, se comparados aos biólogos, pois muitos deles assumem que a teoria de Darwin sempre foi vista como uma grande moldura explicativa para toda a biologia. Richards, o historiador da Universidade de Chicago, recorda que um colega biólogo "teve a chance de ler 'A Origem' pela primeira vez – a maioria dos biólogos nunca o leu – graças a uma aula que estava dando. Encontramos-nos na rua e ele observou, 'Sabe, Bob, Darwin realmente sabia muita coisa de biologia.'"

Darwin sabia muita coisa de biologia: mais que qualquer de seus contemporâneos, mais que um número surpreendente de seus sucessores. Com estudo e pensamento prolongados, ele foi capaz de intuir como a evolução funcionou sem ter acesso a todo o conhecimento científico subsequente exigido por outros para se convencerem da seleção natural. Ele teve objetividade para colocar de lado critérios com poderosa ressonância emocional, como a convicção de que a evolução deveria ter um motivo. No resultado, nós vimos com profundidade os estranhos funcionamentos do mecanismo evolutivo, uma percepção ainda não totalmente superada, mesmo um século depois de seu grande trabalho de síntese.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Tataraneto de Darwin refaz rota do ancestral no Brasil

Tataraneto de Darwin refaz rota do ancestral no Brasil

Durante expedição pelo interior do Rio, Randal Keynes "enfrenta" criacionistas

Viagem para comemorar os 200 anos de publicação de "A Origem das Espécies", em 2009, incluiu 12 cidades que pai da evolução visitou

Rafael Andrade/Folha Imagem
O lingüista Randal Keynes

ITALO NOGUEIRA
ENVIADO ESPECIAL AO INTERIOR DO RIO

Quatro gerações após o naturalista Charles Robert Darwin observar animais e plantas no interior do Rio e iniciar a viagem que o inspirou a criar a teoria da seleção natural, um de seus descendentes pôde colher evidências daquilo que a tese de seu ancestral provocou: o debate entre religião e ciência.
O lingüista Randal Keynes, 60, tataraneto de Darwin, participou na semana passada da expedição "Caminhos de Darwin", organizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, a Casa da Ciência da UFRJ e o Departamento de Recursos Minerais do Rio para realizar eventos com estudantes nas 12 cidades por onde Darwin passou no Estado. O evento integra as comemorações no Brasil do Ano Darwin, 2009, bicentenário da publicação de sua obra-prima "A Origem das Espécies". Keynes assistiu até a um julgamento da seleção natural.
Aos 22 anos, em 1831, Charles Darwin embarcou no HMS Beagle, navio britânico que tinha como objetivo identificar rotas de navegação. Durante a viagem, de cinco anos, escreveu um diário -publicado depois no livro "A Viagem do Beagle".
As observações basearam a elaboração da teoria da seleção natural como mecanismo evolutivo. A tese sofreu resistência da igreja, pois eliminava a necessidade de ação divina para a produção das espécies.
Darwin ficou 93 dias no Rio, 16 deles no interior -o navio também passou por Salvador, Recife e Fernando de Noronha.

Tribunal
Os estudantes Gabriel de Martim, 12, e Lucas da Silva Siciliano, 12, sintetizaram a discussão mantida -explícita ou veladamente- nas cidades visitadas. Os dois representaram, respectivamente, Darwin e um papa numa peça em Araruama que encenava um "julgamento" sobre a teoria darwinista.
"Toda vez que trabalhamos a teoria da evolução, a turma se divide. Decidimos mostrar esse debate", disse Marcos Barbosa, professor de história.
Keynes disse ter visto uma boa recepção ao aprendizado da teoria de Darwin. Para ele, a seleção natural e religião não são incompatíveis. "O problema [de algumas pessoas] é aceitar que humanos estão intimamente ligados a animais. Temos de aceitar nossa natureza humana e animal."
Em Maricá, Marcos Lacerda, professor de biologia, afirmou que pode até perder o posto de paraninfo de uma turma após ensinar a teoria em sala de aula. "Tem aluno que carrega a Bíblia embaixo do braço."
Já em Conceição de Macabu, Keynes assistiu a uma peça organizada por uma criacionista: Elieth Figueira, diretora da escola onde foi realizada a recepção ao descendente de Darwin.
"Eu não gostava de Darwin. Depois que soube que ele passou pela cidade, passei a admirá-lo. Mas continuo não concordando com a teoria."
O criacionismo ganhou força no Rio principalmente após a ex-governadora evangélica Rosinha Matheus instituir a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas estaduais.
"Não é possível dizer que a questão religiosa dificulta a aprendizagem da teoria de Darwin, já que o ensino como um todo é deficiente. Mas é um obstáculo. A interferência de alguns padres e pastores dificulta a convivência da teoria com a crença religiosa", disse a bióloga Sandra Selles, da Universidade Federal Fluminense.
Ao que tudo indica, Darwin e a religião continuarão a dividir o mesmo espaço. A Fazenda Itaocaia -um dos locais por onde ele passou- pertence agora a Manoel Nunes dos Santos, 60, um empresário que se orgulha de mostrar a sua carteirinha de missionário da igreja Ministério Restaurando Vidas.
Ele diz não conhecer a seleção natural. Crê em milagres e na criação divina, mas não se importa com o que dizem de Darwin e quer manter a fazenda onde o cientista almoçou. "É história. Tenho de preservar."